Serei o primeiro a reservar acomodações em Lagos


Como naquela famosa canção que ouvi com Carlos do Carmo numa casa de fado no Bairro Alto, em Lisboa, ´não se morre de saudade, de saudade eu não morri´. Mas era para ter morrido, tantas as emoções aqui nesta Cataguases que visito pela primeira vez. Só falta escutar nas ruas bonitas – cravejadas de paralelepípedos brilhantes nas madrugadas desta aprazível cidade de Minas – algum fadista a cantar em contraponto com a seresta mineira.

Se o fadista disse que não se morre de saudade, no entanto quase todos nós que aqui estamos para este I Festival de Cinema de Países de Língua Portuguesa bem cedo estaremos padecendo desse mal da alma a partir de agora, tantas as lembranças que se vão embora conosco depois do dia 12 de junho.

Aquele fado antigo, de letra belíssima, fala de um sujeito apaixonado e desiludido, numa pracinha à noite: “no banco da esperança, estou sentado à tua espera,/ eu voltei a ser criança neste jardim de quimeras...”, e, mais adiante, “não sou a flor que tu almejas, mas sou mais do que mereces?”.

Em casa, no Rio, e atualmente em Juiz de Fora, aposentado do Ministério das Relações Exteriores, a escutar músicas e a ver filmes que gravei e filmei, em Portugal, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Angola e Moçambique, por onde vivi e perambulei em nome da burocracia oficial e, sobretudo, por força de uma atração natural (os pedantes diriam atração telúrica pelo primeiro habitat do homem, a África) pelas terras africanas.

E, de tanto ouvi-las e rever meus filmezinhos dessas terras, comecei a achar que eu era já um caso patológico, um sujeito que agora só vivia de saudades, num mundo só meu de fantasias, compartilhado por ninguém mais além de meus fantasmas antigos.

Mas, como Deus é bom e, principalmente, brasileiro, deu-me Ele a graça de vir a este Festival de Cataguases, onde tantos outros como eu (o que prova não ser só eu o doente de nostalgia) estão vivendo a mesma sensação de alumbramento, palavra tão a gosto do nosso Manuel Bandeira em sua “Evocação do Recife".

É, assim, um festival-terapia para os eternos apaixonados pelo vasto mundo lusófono, o nosso mundo. Como se isso fora pouco, reencontrei nesta bonita cidade um velho amigo e colega dos tempos da Revista O Cruzeiro, artista gráfico de primeira linha, o Dounê Spíndola, que para aqui voltou depois de tanto brilhar na Corte.

Quero ser um dos primeiros do Brasil a reservar hotel agora em Lagos, e fazer o movimento inverso: minha nave sairá de Cataguases, navegando o Rio Pomba, até ancorar no mundo de saudades do Algarve. Talvez cruze pelo caminho de volta com algum “navegante atrevido, que saiu de Palos um dia, vinha com três caravelas, a Pinta, Nina e a Santa Maria”, como no poema-música do Caetano Veloso.

Acho que aquele seu navegante atrevido ainda vem a caminho, tentando aportar em Cataguases... Mas, ainda que ele chegue um pouco tarde, já ao fim do evento, certamente descobrirá aqui mais do que uma bela cidade, povo gentil e um Festival de Cinema de alto nível. Chegará tarde, mas com a vantagem de que, desta vez, o seu Caminha disporá da Internet, seu Rei terá notícias da descoberta do CINEPORT e desta cidade, bem mais depressa do que antes. Por isso gostará e quererá aqui ficar, sem prazo de volta.













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