JOSÉ FONSECA E COSTA
Glauber me ensinou: o Cinema Novo está ancorado em Humberto Mauro


O cineasta português José Fonseca e Costa tem motivos de sobra para se sentir satisfeito. Duas obras já foram exibidas no I CINEPORT: “Cinco Dias, Cinco Noites” e “O Fascínio”. O realizador veio ao Brasil especialmente para participar do Festival, onde será uma das personalidades do cinema de língua portuguesa a receber no próximo sábado, 11 de junho, o Troféu Humberto Mauro.

“Receber este troféu ao lado de Nelson Pereira dos Santos é uma grande honra”, destacou Fonseca e Costa. Nacionalizado português, o cineasta nasceu em Angola, em 1933, e passou a atuar no mercado cinematográfico em 1965, assinando a direção de “Clara d’Ovar em Óbidos”.

“Cinco Dias, Cinco Noites”, filmado em 1996, deu ao diretor o Globo de Ouro do melhor filme do ano. A história se passa em Portugal nos anos 40: um jovem, após abandonar o país por ter fugido da prisão, envolve-se com um contrabandista numa relação de antipatia, desconfiança e admiração, terminando numa grande amizade. O outro filme a participar da mostra, “O Fascínio”, conta a história de um empresário que recebe uma grande quantidade de terras de um tio-avô, com quem ele havia brigado.

Em Cataguases, o cineasta conversou com o CINEPORT NA TELA. Em foco, o cinema no Brasil e em Portugal.

CINEPORT NA TELA – Qual sua relação com os cineastas brasileiros Humberto Mauro e Glauber Rocha?
FONSECA E COSTA – Eu conheci Humberto Mauro pessoalmente, mas o conheci muito melhor quando fiz uma grande amizade com Glauber Rocha, que tinha por Mauro uma amizade ilimitada.

CT – Vocês ficaram mais amigos quando ele morou em Portugal?
FC – Glauber viveu os últimos anos de sua vida em Portugal, quando nós estávamos juntos todos os dias. E o Glauber me fez conhecer de uma forma muito melhor algumas das coisas de Humberto Mauro, através de conversas que tivemos. E me fez entender também porque o Cinema Novo Brasileiro estava todo ancorado no trabalho de Humberto Mauro.

CT – Quando teve notícia do Festival CINEPORT?
FC - Quando a Mônica Botelho foi a Portugal e me contou a sua idéia de se fazer este Festival sobre a égide de Humberto Mauro, eu disse a ela que fiquei surpreendido, pois é uma iniciativa ao mesmo tempo muito corajosa e muito original.

CT – Como avalia a situação do cinema dos países de língua portuguesa?
FC – As cinematografias de expressão portuguesa não são cinematografias fortes, são na verdade muito enfraquecidas pela falta de proteção que os estados têm deixado de dar para a produção cinematográfica local.

CT – Acredita que festivais como o CINEPORT possam chamar a atenção desses governantes?
FC – Eu penso que essa manifestação pode alterar este ponto de vista. O filme que não tem espectadores é um objeto morto. E como os nossos mercados estão dominados pela cinematografia americana, é preciso que cada um dos governos dos países que fala a língua portuguesa tome consciência disso e resolva promover a proteção da exibição dos nossos filmes nos seus próprios mercados. Nós não assistimos aos filmes brasileiros em Portugal, assim como vocês também não assistem aos portugueses no Brasil, a não ser em festivais como este.

CT – Na sua opinião, qual o cineasta brasileiro que mais se destaca?
FC - Sabe, eu considero o Nelson Pereira dos Santos um dos grandes cineastas deste mundo. Há um filme chamado “Vidas Secas” que me marcou pra sempre. É uma obra-prima.













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