Imagens-luz da CPLP


CINEPORT é imagem, imagens da diversificada cultura em língua portuguesa. “Imagens em língua portuguesa”, por sinal, é o título de uma das três exposições inauguradas no Centro Cultural Humberto Mauro durante o Festival. São fotos do universo da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, realizadas pela fotógrafa mineira Regina Santos. A seguir, o texto escrito por Ronaldo Werneck para apresentar a mostra.

“Pungente na brandura do olhar, a fisionomia do menino de Guiné-Bissau é mais forte que qualquer tristeza. Com sua bandana branca e um sorriso de entrega o outro menino, de Angola, olha para nós pelo olho-câmera como quem se despe de qualquer mal. Assim dispostos, um em face do outro no corredor desta exposição de “Imagens em Língua Portuguesa”, esses meninos parecem em permanente diálogo, como se interligados por alguma coisa maior que a interrogação que seus olhos desenham. Talvez o mundo distante daquelas moçambicanas à beira-mar: seres da areia, e que nela caminham com suas crianças a tiracolo e suas vestes multicores – mescladas à paisagem como se nela para sempre entranhados. Para sempre como também ali parece estar o arroz doce-amargo que as crianças timorenses deitam sobre o leito do rio de Laleia. O rio que vai dar no mar, mar que vai dar em São Tomé e Príncipe, ora pois, ó pá!, onde vemos as lavadeiras a lavar, as roupas a secar num explosão de cores prismadas por um sol de intensa luz.

É ainda de Moçambique que nos chega o olhar desconfiado da menina de amarelo, o semblante expressivo de quem cuida de sua irmãzinha a ressonar enganchada às suas costas – um momento de áspera ternura entrelaçada no encontro de mãos e pés irmãos. Os pés, as pernas, as perneiras dos brasileiríssimos índios Kamaiurá: um enquadramento de cinema, câmera que mergulha em profundidade na diagonal, por toda a extensão do quadro. A sombra das pernas sobre a areia, como estacas projetadas por corpos que se integram à textura da paisagem numa composição de grande efeito plástico. Cascalho, árvore, água, pedra: o mundo que se devassa em Cabo Verde, e de repente inunda de imensidão o quadro negro do portal que se abre. A luz, sempre a luz da natureza. Luz impressionista, que remete a palavras silabadas com doçura, sensibilidade, suavidade, saudade. Saudade maior refletida nos tons em preto, sobrecarregados de pura emoção dos fregueses e cantores de A Baiúca, a casa lisboeta de fados. Portugal é aqui flagrada em sua essência nessa toda suave-saudade.

O menino da Guiné, o de Angola, as mulheres de Moçambique, as pequenas plantadoras de arroz do Timor Leste, as lavadeiras de São Tomé, os índios do Brasil, a paisagem de Cabo Verde, o fado-paisagem de Lisboa. Toda a diversidade cultural desses povos que se irmanam pela língua em comum e que se fazem representar aqui por esses trabalhos da brasileira Regina Santos (Leopoldina, Minas Gerais), fotógrafa de trajetória em diálogo permanente com as artes plásticas, de sensibilidade fortemente impressionista, capaz de captar a luz natural com a impactante suavidade de quem começou a ver o mundo filtrado pela luz da Mata Mineira. E que agora se reflete, nesse “universo-Cineport”, por toda a extensão da CPLP-Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.”













© Copyright Festival CINEPORT. Todos os direitos reservados. Site desenvolvido pela Base.