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Andorinha CINEPORT
pousa na Universidade



“A mobilidade do vôo permitiu essa parceria entre o CINEPORT e a Universidade: coisas da Andorinha”, disse na manhã de hoje a Coordenadora da Usina Cultural Saelpa, Cleide Barros – representante da Diretora do Festival, Mônica Botelho, na abertura do Encontro Literatura em Diálogo na Língua Portuguesa, que se realiza na Reitoria da UFPB-Universidade Federal da Paraíba. “A Andorinha CINEPORT chega à Universidade, e nada melhor do que falar de cinema e literatura num local como este, onde tais temas são privilegiados”.

Diretor do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes da UFPB, o professor Lúcio Flávio afirmou ser o CINEPORT “um marco na história da UFPB, que lançará a cidade no cenário internacional do cinema e da literatura”. E concluiu: “que a integração se processe agora de modo mais suave do que foi feita ao longo da história”.

A seguir, assumiu o microfone o Embaixador do Brasil na CPLP, Lauro Moreira, que apresentou ao vivo trechos de seu cd “De mãos dadas” – onde passeia com voz límpida e de entonação perfeita por grandes poetas de países de língua portuguesa. Esteve por lá o Camões universal, é claro. O português Pessoa e o africano Jorge Barbosa.

E vários brasileiros, da “Canção do Exílio”, de Gonçalves Dias, ao Manuel Bandeira daquele definitivo “o ruído de um bonde cortava o silêncio como um túmulo. Do toureiro de João Cabral, que ensina aos poetas a não poetizarem seus poemas, a dois belos sonetos de Marly de Oliveira, extraídos de “O sangue nas veias”. Um breve e essencial apanhado de grandes momentos da poesia em língua portuguesa.

Loja e Agualusa

Forma-se então a mesa-redonda para debater o tema “Os desafios da difusão da cultura em Língua Portuguesa: o próprio Embaixador Lauro Moreira, o escritor angolano José Eduardo Agualusa e o poeta e jornalista português António Loja Neves. Em sua fala, Lauro Moreira traçou um panorama da história da CPLP, que completou dez anos de existência em 2006.

O Embaixador destacou os três pontos focais de cooperação da Comunidade: a concertação político-diplomática entre seus membros; a conciliação de crises políticas; e a área da cultura. E ressaltou que a língua não é finalidade, mas instrumento – e que o CINEPORT contribui também para a defesa da língua, e para isso é preciso dinamizar o IILP-Instituto Internacional da Língua Portuguesa, criado em 1985, com sede em Cabo Verde.

Sobre o acordo ortográfico, que voltou a ser recentemente discutido, Lauro Moreira disse que o mais importante é que a sociedade civil se organize para fazer o que tem de ser feito, a começar do povo. Quanto ao Festival, afirmou que “o CINEPORT começa a se consolidar como ponto importantíssimo da cultura dentro da CPLP”.

José Eduardo Agualusa, que participava da mesa também na qualidade de editor da “Língua Geral”, ressaltou as influências recíprocas entre os países africanos da Comunidade e a importância da presença brasileira, a influência da literatura do Brasil na África, “que se vê em escritores como o angolano Galdino Vieira e o moçambicano Mia Couto. A língua é uma construção conjunta de africanos-brasileiros-portugueses, e não se pode retirar do português as contribuições do árabe, do bantu e dos índios brasileiros”.

O português António Loja Neves começou pedindo um minuto de silêncio, pois “está a desaparecer uma língua ou um dialeto neste exato momento, castrado do essencial, que é o seu mundo de comunicação. Não é o caso do português. O pensamento, o gosto e o afeto renovam a dinâmica da língua portuguesa, que passou de língua conquistadora a língua conquistada. A língua é o que queremos que ela seja”.

Aberta a sessão para perguntas, a troca debatedores-público deixou patente que o importante é se absorver o outro, que haja uma flexibilidade, uma aceitação do que o outro está a dizer. No quesito da fonética, por exemplo, o problema é geral. Como ressaltou Agualusa, “o tupi é uma língua vocálica, aberta, e por isso é aberta a língua do Brasil, ao passo que em Portugal ela é fechada. Na África, ela fica numa espécie de meio-termo”.

Loja Neves reivindica a diferença: “é mais fácil ouvir uma fala de vogal aberta. Os portugueses comem mais sílabas que propriamente vogais. Não se falar bem a língua é catastrófico. Não saber o que fazer com a pontuação, não saber o que fazer com a vírgula”. Do que se viu, do que se ouviu, a discussão sobre o acordo ortográfico parece levar a uma encruzilhada: não há acordo.

Camilo, Vendrell, Stropianna

“Cinemas daqui e d´além-mar: Brasil, Portugal e África” – este o tema da mesa-redonda vespertina na Reitoria da UFPB, formada pelo realizador e produtor moçambicano Camilo de Sousa; pelo também realizador e produtor português Fernando Vendrell; por Bruno Stropianna, produtor do Brasil; e pela cineasta brasileira Ana Carolina, com moderação do ator e dramaturgo português Paulo Filipe Monteiro.

Falou-se do problema da distribuição, pois sem dinheiro o filme fica na gaveta. Mas ressaltou-se que o problema da língua não atrapalha a distribuição. Falou-se de um suposto “movimento dos sem-tela”. Ana Carolina disse que “é preciso ter um dote para dar ao distribuidor”. Camilo foi categórico: não se vê filmes africanos em Moçambique”.

A cineasta moçambicana Isabel Noronha, que estava na platéia, destacou que os filmes do Fernando Vendrell tocam na questão colonial, que é recente e está viva na memória das pessoas. Quando se toca nessas questões, cria-se uma espécie de angústia. Levantam-se coisas que estão vivas, não estão cicatrizadas. Para Ana Carolina, “o cinema é uma entidade perversa”.

Agora como público, António Loja Neves destacou que “são oito países com realidade única. Não há nada que nos ligue, a não ser as aflições. Também na platéia, a apresentadora de TV Marília Gabriela dá a entender que “Festival é utopia, pois os filmes que passam aqui, só têm público aqui: as salas vazias dizem outra coisa”. Levanta-se uma “mulher do povo”, como ela mesmo se declara, e diz: se tivesse público, teria patrocínio”.

Ana Carolina: “Estamos sendo atropelados pela história, a internet vai matar a distribuição”. A afirmação fica no ar, como no ar está grande parte da produção cinematográfica dos países-CPLP.



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